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Confira o que rolava na noite! Direto do Túnel do Tempo...
2007: O Ano em que a Le Boy fez 15 Anos
Tcello Ribeiro

  Quando o empresário Gilles Lascar abriu a Le Boy, em 1992, o Rio passava por um hiato em termos de grandes clubes gays. A Papagaio, que ficava na Lagoa Rodrigo de Freitas, havia fechado as portas em 1989 e tinha sido até então o maior e mais antenado point GLS (todas as label parties que rolam hoje têm a essência das noitadas de lá). Pois, sem a Papagaio, o Rio tinha alguns clubes transados, mas nenhum de grande porte. Entre os anos de 1991 e 1992 o produtor carioca Romy Weiss (que naquela época morava em Nova York) passou a produzir festas na Zoom (clube hétero que ficava em São Conrado com uma bela arquitetura e bastante grande). As festas de Romy ( Mr. Fruit Salad, Time Locomotion, Splash Party, Dream Party, entre outras) rolavam aos sábados e apenas durante o verão concentrando todos os barbies cariocas. As produções de Romy foram as precursoras na onda das festas, mas, entretanto, ainda aconteciam em casas noturnas. As pick-ups das noitadas de Romy Weiss eram comandadas pelos DJs residentes Boris Rio e Michel Nahum (dois grandes profissionais que faziam o sucesso nos eventos onde tocavam e fazem parte da construção da cena eletrônica gay brasileira), já o light-jóquey responsável pela festança era este que vos escreve, Tcello Ribeiro, outra visão dos DJs Boris e Michel, que tinham a consciência de que som e luz devem caminhar juntos e que o profissional de iluminação não é apenas alguém que "põe as luzes para piscar".
  Assim a profissão tinha destaque e o pioneirismo de vir com nome impresso em flyers, remuneração justa, além de dividir a cabine em igualdade com os DJs. Hoje em dia, infelizmente, houve um retrocesso, já que poucos profissionais da luz sabem o que fazer quando rola uma virada de bateria, um refrão, um batidão, um paradão e outras nuances da música eletrônica. Ainda há muitos clubes e festas que não dão crédito a DJs e VJs (existem algumas exceções como a festa E.NJOY, produzida por André Garça e Tarcísio Generoso que valoriza o trabalho do VJ e a própria Le Boy que credita o Light Heller e o coloca ao lado dos DJs na cabine). Mas, na maioria dos clubes e festas, ainda vemos o Light-jóquey e o VJ posicionados longe do DJ, sem destaque, fato que desvaloriza o profissional, além de prejudicar o andamento da pista, pois o DJ precisa estar ao lado deles para que possam falar sobre as viradas ou paradas da música. Enfim, é um trabalho de parceiros.   É... A noite dá dois passos à frente e um pra trás! Em 1993 surgiram então as label parties (na época chamadas de raves) que tinham o diferencial de não acontecerem em clubes e sim em locais inusitados. Cinco se firmaram fazendo edições mensais a cada sábado: JLC ( Julinho, Laurentino, Cacau e Rosane Amaral), VAL-DEMENTE ( Valéria Braga e Fábio Monteiro), B.I.T.C.H.* ( Téo Alcântara), BALAKO (eu, Tcello Ribeiro) e MONA ( Felipe Augusto e Babi de Monserrat).
Toda esta história serve para contextualizar a importância da Le Boy na noite carioca. Ela funcionou nos primeiros anos onde hoje é a Bunker (e onde antes funcionava o clube hétero Columbus).
Gilles Lascar desde o início deu atenção até então inédita ao público gay carioca, como, por exemplo, a preocupação com a segurança dos seus clientes (nos flyers vinham avisos para o público denunciar a possível presença de alguém que o houvesse assaltado e que estivesse nas dependências do clube). Gilles também sempre prezou por pequenos detalhes como manter os banheiros limpos, interrompendo a circulação neles no meio da noite para que a equipe possa deixá-los em total higiene; parece pouco, mas não é. Mostra que o respeito ao público vem em primeiro lugar.
 Alguns anos rolaram e a Le Boy passou a ocupar o antigo cinema ao lado e se transformou no grande clube gay que é referência até no exterior.
Hoje o Complexo Le Boy conta também com os bem-equipados e intimistas Boy Bar e La Girl. Grandes profissionais já passaram pela cabine da Le Boy (que teve como primeiros residentes os DJs Marcelo Rezende e Boris Rio).
Atualmente os DJs Ricardo Rodrigues e Gustavo Jr. se firmaram como residentes do grande clube e são dois clássicos da noite carioca que trabalham em conjunto com o Light Heller. A La Girl também conta com o talento crescente do DJ residente Vine, enquanto o Boy Bar inova com o trabalho ímpar do VJ residente Greg.
Ponto para Gilles Lascar que soube escolher uma equipe qualificada que inclui a galera do bar, garçons, seguranças, drags, gogo-boys, caixas, doors e os gerentes Flávio Bulach (La Girl) e Gustavo Azaranys (Boy Bar), além do diretor artístico da Le Boy, Mário Rochá. Incontáveis DJs, produtores e artistas estrangeiros e brasileiros se apresentaram e curtiram a pista da Le Boy. Gilles é figura onipresente no clube que desde 1992 se mantém firme, valorizando o público e sua equipe.
 Como você pode perceber internauta antenado, a noite do Rio está sempre em mutação, em ebulição, mas o Complexo Le Boy acompanha e vai à frente, sempre em sintonia com a modernidade, mas sem cair na armadilha de ondas passageiras.
Gilles Lascar e sua equipe sabem captar o que o seu público quer e merece, porém com o dom de qualificar as escolhas para que não haja decepções e arrependimentos futuros.
Afinal, o grande mérito destes 15 anos da Le Boy é ter proporcionado muita alegria, respeito e uma vibe única para o seu público. Os Deuses da Noite saúdam a Le Boy!
As Festas em Locais Inusitados
Tcello Ribeiro
No início dos anos 90, as festas B.I.T.C.H.*, BALAKO, VAL-DEMENTE, MONA e J.L.C. transformaram o conceito da noite do Rio.
Os produtores destas cinco festas realizavam os seus agitos em locais inusitados.
A onda era fazer as festas em casarões, mansões e galpões. Era uma grande novidade para o público que sabia que todo sábado era dia de uma - e cada festa fazia uma edição mensal.
É verdade que de vez em quando havia duas no mesmo sábado, mas nada que gerasse tanto estresse. A J.L.C., por exemplo, acontecia em mansões em Santa Teresa, onde o povo subia e se perdia pela montanha nos fundos da casa. A B.I.T.C.H.*, antes de fincar bandeira no extinto Tivoli Parque, na Lagoa, fazia edições em mansões também em Santa Teresa, São Conrado e Estrada do Joá, além das memoráveis no Canecão e Morro da Urca.
A BALAKO rolava em oficinas mecânicas, academias de ginástica, sobrados e mansões - como a da Avenida Rui Barbosa, no Flamengo - onde os quatro andares do casarão de mais de cem quartos eram ocupados por telões, decorações temáticas e muita iluminação indireta. Já a VAL-DEMENTE seguia o estilo de locais detonados, mas totalmente transados com super decorações e iluminações sensacionais - inesquecíveis as edições da VAL-DEMENTE no imenso sobrado da Rua São Clemente, em Botafogo. A MONA deixou sua marca nas edições que rolavam numa mansão da Estrada do Joá, onde os jardins eram um caso à parte. Também rolou uma edição da MONA na Avenida Rio Branco, no Centro, que foi muito legal. Provavelmente devo ter esquecido outras locações destas grandes festas - afinal os neurônios queimaram muito naquelas pistas (!). Mas dá para lembrar que a J.L.C. era produzida pelo Julinho, Laurentino, Rosane Amaral e a maravilhosa Cacau. Já a MONA tinha a produção de Fábio Augusto e Babi de Monserrat.  A BALAKO, era assinada pelo Tcello Ribeiro, este que vos escreve. A VAL-DEMENTE pela dupla Fábio Monteiro e Valéria Braga. A B.I.T.C.H.* pelo querido Téo Alcântara (ele merece o querido, porque realmente é muito querido, e além de grande amigo, me deu todas as dicas para as minhas primeiras festas). Naquela época, os próprios produtores filipetavam os seus eventos - com a ajuda de amigos - e era uma honra para o público receber o flyer do próprio dono da festa. No dia do agito os produtores estavam na porta recebendo pessoalmente o povo e na maioria das festas os seus pais e mães participavam ativamente do evento. Os DJs também eram uma grande atração: não dá para citar os nomes, porque posso esquecer alguém. Prometo que farei em breve um outro Túnel do Tempo falando deles, mas Boris, Michel Nahum, Ana Paula, Felipe Venâncio, Renato Baractho, L.C. Ambient, Marcelo Resende, Marcelo Talandré, Ricardo N.S., F.C. Nond, Cláudio Braz, Nino Carlo, Memê, Marcos Landgraff, Gabriel Dub, Mário Italiano, entre outros, já incendiavam as pick-up's.
Kiko e a terceira VAL-DEMENTE
Tcello Ribeiro
Existem situações marcantes que rolam na vida das pessoas. Às vezes boas, às vezes más, mas que são marcantes são! Kiko como todas as criaturas do universo passou por algumas. Uma delas aconteceu em 1993. O nosso amigo de mente complexa que sempre alternou fases light com fases hard estava mais light que comercial de margarina na TV - aqueles em que sempre há um casal feliz, bonito, magro e de branco passeando pela praia ou tomando café da manhã com aquela cara nem um pouco amarrotada que a maioria dos mortais têm ao acordar!
Pois bem, naquele ano coisas esquisitas começaram a acontecer, e que intrigaram a mente tão atordoada de pensamentos complexos de nosso amigo Kiko. Em todo lugar que ele ia, sempre tinha alguém que lhe perguntava: "E aí, já foi na VAL-DEMENTE?". Ora, ora, isso acontecia na academia de ginástica, no shopping, na faculdade, na night, na praia e até em cinemas e teatros. Como Kiko estava na sua fase light, não estava caindo muito na noite. Mas aquela pergunta desencadeou um tormento nos neurônios do nosso complicado amigo.  Um belo dia Kiko passeava pelo Shopping Rio Sul e resolveu comprar umas camisas na loja Yes, Brazil. Ele pensava: "Nada como umas camisetas bem animadas para me deixar com um ar menos preocupado", já que a pergunta que não queria calar o perseguia como aqueles gritos de "Olha o Mate!" fazem sempre quando estamos relaxados e quase totalmente zen nos bronzeando na praia.
Ao entrar na loja Kiko deu de cara com uma moça simpática, produzida e sorridente; era a gerente Valéria que ele já conhecia da Yes do Shopping da Gávea. Comprou as camisetas que queria, conversou com a Valéria e quando ele já estava indo embora pensando que a sombra da pergunta havia se dissipado sob a influência das camisetas coloridas, eis que Valéria dispara: "E aí, já foi na VAL-DEMENTE?". Então ele não resistiu e resolveu confidenciar a ela que estava se sentindo um ET, um ser de outro planeta, já que parecia ser a única pessoa deste universo que não tinha ido a tal lugar.
Então Valéria explicou que a VAL-DEMENTE era uma festa que ela estava produzindo com o amigo e sócio Fábio. Deu o endereço e avisou que no próximo sábado ia rolar. Era quinta-feira e Kiko pensou em ir. Na sexta-feira às oito da manhã ele estava com o maior sono assistindo à aula de Sociologia na Faculdade. Os olhos abriam e fechavam, tudo que ele queria era um bom café para acordar ou então um bom motivo para se manter alerta, como por exemplo, alguém que ele sempre paquerou ou um par de palitos para segurar as pálpebras!!!
Como não havia nenhuma das opções o sono se instalava sem pedir licença. A voz da professora ficava cada vez mais longe e a mestra explicava como os efeitos de novos movimentos que nascem de iniciativas alternativas podem se manifestar e virar referência mais tarde na sociedade. E para a surpresa de Kiko, ela citou a VAL-DEMENTE como um desses novos movimentos. Kiko despertou como se tivessem jogado um balde de água gelada na sua cara. A professora socióloga dizia para prestarmos atenção que aquela festa VAL-DEMENTE iria mudar os paradigmas da noite no Brasil, já que tudo, desde a localização, passando pelo público, decoração e som eram novidades que iriam desbancar o até então estilo gueto que separava algumas tribos.
Enfim o sábado chegou e Kiko foi com uma amiga à festa. O local? Um sobrado na Rua São Clemente em Botafogo, no Rio de Janeiro. Pela fachada parecia um lugar pequeno e velho. Kiko estacionou o carro próximo à Estação do Metrô e seguiu em direção ao sobrado. Ao entrar ele teve o primeiro impacto: um corredor estreito com o teto em desnível e uma fila. A curiosidade já dominava o cérebro de Kiko e sua amiga.
Após alguns minutos a fila andou e ao final estava ela, a Valéria, agora incorporada como a Val. Cabelos em penteado bolo de noiva, maquiadíssima, produzidérrima ela recebia as pessoas num caixa cercado de candelabros em estilo gótico. Kiko a cumprimentou e entrou. Aí sim veio a grande surpresa: era um galpão imenso todo decorado impecavelmente, as paredes forradas com tecidos e muitas esculturas, asas gigantescas, candelabros e luz indireta completavam a ambientação.
Um meio-mezanino com buracos iluminados e uma gente interessante demais e demais! O som bombava, mas ele olhava para o alto e não localizava a cabine de som. Se aventurou então pela pista de dança e lá no final estava a cabine. Não no alto ou escondida como eram todas na época. A cabine estava no chão, no mesmo nível do público que podia saudar o DJ Felipe Venâncio que arrebentava no som.
O povo era também um caso à parte. Todos celebravam com uma felicidade e prazer até então inéditos aos olhos de Kiko. Homens, mulheres, barbies, o povo antenado dos clubes Dr. Smith e Kitschnet (que já havia fechado as portas), muitos artistas e muita azaração. Uma equipe do jornal O Globo também estava presente e havia montado um pequeno estúdio fotográfico numa sala anexa onde convidava algumas pessoas para dar declarações e fotografá-las. Foi matéria de página inteira do segundo caderno.
O Fábio Monteiro era o produtor da festa em parceria com a Val. Kiko já o conhecia da night e também curtia muito a grife de roupas modernas que ele tinha, a Demente Criatura.
Às vezes os momentos históricos se restringem ao primeiro acontecimento. Kiko pensou: "Puxa essa já é a terceira edição da festa, e eu perdi as duas primeiras...". Mas naquele caso o tempo provou que não, já que a VAL-DEMENTE virou um ícone de diversão e modernidade e, posteriormente, quando Fábio e Val romperam a sociedade o público foi agraciado com mais festas: a VAL de Valéria e a X-DEMENTE de Fábio, que também lançou a X-PARTY.
Infelizmente a VAL não rola mais no Rio e a X-PARTY não foi adiante, mas felizmente a cidade maravilhosa ainda conta com as festas de Fábio. A X-DEMENTE virou referência nacional e é saudada até no exterior. Inspirou também diversos produtores que com talento ajudam a movimentar as noites brasileiras.
Kiko que pensou ter perdido um momento histórico por não ter ido às duas primeiras edições da VAL-DEMENTE logo sacou que não, que havia assistido sim a um momento histórico e que até hoje cada edição da X-DEMENTE de Fábio Monteiro é um acontecimento para se guardar na memória sim!!!
Encanação
Tcello Ribeiro
De meados dos anos 80 até início dos 90 existiu um lugar em Copacabana chamado Crepúsculo de Cubatão. A onda dark imperava no comportamento das pessoas e o Crepúsculo era o point! Todos de preto, barração na porta de quem não estivesse devidamente desesperançado, essas coisas... Mas era muito divertido.
O clube era na Rua Barata Ribeiro 543 e a pista de dança no subsolo ocupava parte da garagem do prédio. Como o pé direito da pista era baixo, todo o encanamento passava bem perto da cabeça das pessoas e era pintado de acordo com a decoração da boate. Numa bela e agitada noite, eis que uma pessoa que dançava muito bem-colocada resolveu se pendurar nos canos. O cano se rompeu e inundou o dance-floor. Vale lembrar que o que passava por aquele encanamento todo não era água mineral!
A partir daquela noite os seguranças da casa tiveram a difícil missão de vigiar os canos e impedir que a turma mais colocada voltasse a se pendurar neles. Não foi tão mal, pois a encanação que o pessoal do Crepúsculo curtia mesmo era dançar com as paredes. Posteriormente o Crepúsculo fechou e surgiu ali o clube Kitschnet com uma decoração colorida que incluía sofás vermelhos, mesas de pé-palito e uma cama de casal na pista de dança. Bem alegre e totalmente anos 50/60.
 A ambientação era assinada pelo designer Cláudio Bráz que também era DJ da casa. Falar em DJ, não dá nem para citar todos os que tocaram no Crepúsculo e Kitschnet, pois posso esquecer de algum, mas era um time quente e muitos estão agitando as noites até hoje. Mas é impossível não lembrar das performances do DJ Zé Pedro que tocava com figurinos altamente excêntricos. O que mais chamava atenção, porém, não era muito trabalhado: um saco que cobria todo o corpo do DJ e a visão que as pessoas tinham ao olhar para cabine de som era a de um saco dançante!! Entre os sócios dos dois clubes estava Ronald Biggs que ficou famoso por integrar a quadrilha que realizou o que foi considerado o maior assalto do século XX, o do trem pagador entre a Escócia e Londres em 1963.
Biggs realizou o assalto no dia que completava 33 anos, ficou dois anos preso e conseguiu fugir para o Brasil onde se casou e teve um filho. Aliás, Mike o filho brasileiro dele, foi uma estrela na infância quando integrou o grupo infantil Trem da Alegria ao lado dos cantores Jairzinho e Simony. O outro sócio era Tristan Person sempre presente nos clubes, mas só fisicamente, pois ele bebia tanto que muitas vezes a sua mente se afogava em algum copo colorido.
O espaço onde funcionou esses lendários clubes é excelente e bem que algum empresário poderia abrir um novo clubinho por lá. Como sei disso? Historinhas que papai e mamãe contavam para eu dormir, já que naquela época eu ainda estava no berço, mas sempre engatinhava até o Kitschnet para iluminar a pista!
In The Night 1 | 1995
In The Night 2 | 1995
In The Night 3 | 1995
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