O Tablado, grupo formado por Maria Clara Machado está em plena atividade
Em quase meio século de existência, o pequeno teatro do Jardim Botânico atrai a atenção de crianças e adultos por seus belos espetáculos e concorridos cursos. Possuir o seu próprio espaço é um dos fatores responsáveis pela longevidade do grupo
Confira esta matéria com a saudosa Maria Clara Machado, que nos deixou em 2001. Nos deixou não, pois a obra de Clara está presente em todos os corações dos adultos e crianças que passaram pelo mágico palco do Tablado. A menina e o Vento, O Cavalinho Azul, Pluft, Camaleão Alface e tantos outros personagens que vivem na lembrança de todas as pessoas sensíveis que passaram e que ainda passarão pelo Tablado, sejam como espectadores, alunos, atores ou diretores. Clara deixa a nossa vida mais feliz, ao passar o seu amor ao teatro através de tantas gerações. |
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Tcello Ribeiro
O Tablado está às

vésperas de completar cinqüenta anos. Palco de formação de inúmeros artistas entre atores, diretores, cenógrafos e figurinistas
, O Tablado mantém viva a chama do teatro amador, bem na essência da expressão que pelos tabladianos é bem conhecida: amador é aquele que ama. Sempre à frente do grupo está Maria Clara Machado, 78 anos, que ao longo desse tempo escreveu uma obra dedicada às crianças, tendo peças traduzidas, premiadas e encenadas em diversos países.
Em 1951 durante as reuniões que integravam intelectuais e artistas na casa do seu pai (o escritor Aníbal Machado) em Ipanema, Maria Clara resolveu fundar um grupo teatral amador junto com o amigo Martim Gonçalves, porém, ninguém imaginou que a idéia iria tão longe, nem mesmo ela. "A minha grande vantagem é que eu nunca tenho expectativa, eu deixo correr", esclarece a autora de Pluft, o fantasminha que morria de medo de gente.
Atriz, diretora e autora Maria Clara ainda tem tempo para dar aulas no Tablado e diz que as pessoas também podem fazer teatro como uma forma de terapia. "O teatro é genial, eu dou aulas para pessoas da terceira idade, aí a terapia entra muito. Às vezes é o médico mesmo quem recomenda. É muito bom, levanto o ego", afirma. O fato de vários artistas citarem O Tablado como um marco inicial em suas carreiras fez com que muita gente procurasse o teatro de Maria Clara como uma porta de entrada para a TV Globo, quando isso ocorre ela logo avisa. "Olha aqui não é porta de entrada para a Globo não, mas você querendo pode ficar". Foram situações como essa que inspiraram a peça Tabroadway dirigida por Luis Carlos Tourinho, ex-aluno e também professor do Tablado.
Peça censurada durante o regime militar
Na dramaturgia da Maria Clara nunca faltou espaço às críticas sociais. Dos políticos em Tribobó City às trapalhadas do ladrão Camaleão Alface em O rapto
das Cebolinhas, Camaleão e as Batatas Mágicas, A Volta do Camaleão Alface e Camaleão na Lua. Da bondosa bruxinha Ângela em A Bruxinha que Era Boa ao capitão Perna de Pau em Pluft, o Fantasminha. Do menino Vicente que sonha que o seu velho pangaré se torne azul em O Cavalinho Azul às estripulias da menina Maria que deseja "ventar a tia do piano, desarrumar tudo" em A Menina e o Vento.
Mas foi em Aprendiz de Feiticeiro que a censura agiu: na peça infantil de 1969 - auge da ditadura no Brasil - havia um personagem chamado Tenente Perseguição que ao tomar uma fórmula que "aflorava o lado mais forte da mente" acabou num caso irreversível de "cabeça de jumento". Maria Clara relembra esse episódio. "Eu me senti orgulhosa, o fato de a censura militar ter me censurado mostrou que eu estava viva e presente".
Talvez por isso ela seja categórica. "Eu nunca pedi e nunca pediria nada ao governo. Eu acho que a gente não deve pedir nada a ele, nós devemos é fazer e criticar bastante o governo para ver se ele melhora um pouco". Sobre as declarações do ministro da saúde José Serra, que culpou os meios de comunicação pelo alto índice de gravidez na adolescência no Brasil, Maria Clara diz. "Bom se ele declarou é porque se baseou em alguma verdade. É uma coisa meio triste,não é? Tanta menina mal informada e que engravida sem querer, elas acabam se deixando levar. É um problema de falta de educação".
Palco de clássicos
Em quase cinco décadas O Tablado também se caracterizou pela montagem de textos clássicos: Nossa Cidade de Thornton Wilder, O Tempo e os Conways de J.B. Priestley, Do Mundo Nada se Leva de Kaufman e Hart, O Médico à Força de Moliére, Barrabás de M. de Guelderode, Piquenique no Front de F. Arrabal, Sonho de Uma Noite de Verão de W. Shakespeare entre outros.
A convivência com antigos integrante do grupo é corriqueira, há, inclusive, os que nunca se afastaram como Sílvia Fucs que é uma das administradoras do Tablado e Vânia Velloso Borges, 69 anos. Vânia foi a primeira atriz a interpretar os personagens femininos de Maria Clara; ainda nos anos 1950 ela foi a Maribel em Pluft, o Fantasminha e a bruxinha Ângela em A Bruxinha que Era Boa. "Maria Clara é uma excelente criadora de personagens, e ela dirige mesmo você no palco. Agora faz isso, sinta isso, o que você podia dar ela ia sugando. E eu entrei pela primeira vez em cena com a cara e a coragem para cantar em `Nossa Cidade", recorda Vânia, que hoje auxilia na administração do Tablado. Para Vânia, As Interferências é a melhor peça adulta de Clara.
Nos últimos anos Maria Clara vem entregando a direção de suas peças à sobrinha, a atriz e diretora Cacá Mourthé. "Ela é muito boa diretora, muito competente. Eu geralmente assisto ao ensaio geral, a Cacá vai indo muito bem", afirma Clara lembrando que é difícil ficar sem opinar. "Eu dou palpites, não consigo ficar quieta". E é com essa mesma inquietude que O Tablado se aproxima dos seus cinqüenta anos.

Cacá Mourthé
Atriz, diretora e professora do Tablado
"O Tablado é o lugar onde o ator ou o jovem que está perdido, que não sabe o que fazer pode entrar sem mudar muito a vida, mas mudando inteiramente porque vai aprender tudo. A varrer o palco, a ser bilheteiro, contra-regra, iluminador e até a ser ator. Então eu acho que é um lugar rico não em teorias, mas rico em prática, a prática do teatro. A prática maior que é não querer ser apenas ator ou diretor, mas conhecer toda a estrutura teatral, e O Tablado viabiliza isso".
Peças infantis de Maria Clara Machado
1953 - O BOI E O BURRO NO CAMINHO DE BELÉM
1953 - O RAPTO DAS CEBOLINHAS
1954 - A BRUXINHA QUE ERA BOA
1955 - PLUFT, O FANTASMINHA
1956 - O CHAPEUZINHO VERMELHO
1957 - O EMBARQUE DE NOÉ
1959 - O CAVALINHO AZUL
1959 - A VOLTA DO CAMALEÃO ALFACE.
1961 MAROQUINHAS FRU-FRU
1962 - A GATA BORRALHEIRA
1962 - A MENINA E O VENTO
1966 - O DIAMANTE DO GRÃO-MOGOL
1967 - MARIA MINHOCA
1968 - APRENDIZ DE FEITICEIRO
1969 - Camaleão na Lua
1971 - TRIBOBÓ CITY
1974 - O PATINHO FEIO
1974 - OS CIGARRAS E OS FORMIGAS
1976 - CAMALEÃO E AS BATATAS MÁGICAS
1977 - QUEM MATOU O LEÃO?
1979 - JOÃO E MARIA.
1983 - O DRAGÃO VERDE
1986 - O GATO DE BOTAS
1992 - PASSO A PASSO NO PAÇO IMPERIAL - em parceria com Cacá Mourthé
1993 - A CORUJA SOFIA
1996 - A BELA ADORMECIDA
2000 - JONAS E A BALEIA - em parceria com Cacá Mourthé
2003 - A ROUPA NOVA DO REI - Cacá Mourthé termina essa peça que foi montada após Maria Clara partir
Peças adultas de Maria Clara Machado
1963 - REFERÊNCIA 345
1964 - MISS BRASIL
1965 - AS INTERFERÊNCIAS
1969 - OS EMBRULHOS
1972 - UM TANGO ARGENTINO